
Esta doutrina segue preceitos ligados ao proselitismo, sendo assim, a prática espiritual individual sugere automaticamente que o indivíduo obtenha altos índices de autoconhecimento e internalização de todos os meios de obtenção da sabedoria
Isto só é possível, pois na concepção litúrgico-teórica do sujeito daimista, durante a participação nos cultos há procedêutica de ingestão do denominado Santo Daime , espécie de substância enteógena que desencadeia um processo de auto conhecimento, que visa corrigir os defeitos e melhorar-se continuamente como Ser Humano, para que possa um dia alcançar a perfeição e o perdão divinal.
A atratividade dos cultos é a forte presença de músicas (hinários) que entonam e embalam as celebrações.
Hoje os principais simbolos da doutrina são:
ESTRELA DE SALOMÃO:

CRUZ DE CARAVACA:

LUA:

Os Traços do Espírito
Conhecido como cartunista de humor, o criador do Geraldão, da Dona Marta, do Zé do Apocalipse e do Casal Neuras aprendeu a sonhar com Castañeda e tornou-se um líder espiritual do Santo Daime.
Ferve o caldeirão de raças e culturas brasileiras. De um lado, o culto do Santo Daime, criado na Amazônia dos anos 30 pelo negro maranhense Raimundo Irineu Serra. De outro, a febril atividade da imprensa alternativa do Rio de Janeiro e de São Paulo, na luta contra a ditadura militar. Como imaginar que histórias tão dessemelhantes viessem a se encontrar, miscigenar, dar frutos? Pois assim sucedeu. E a costura foi feita por Glauco Vilas Boas, o Glauco.
Pouca gente sabe mas o criador do Geraldão, do Geraldinho, do Casal Neuras, da Dona Marta, do Zé do Apocalipse, do Doy Jorge, do Netão, da Picadinha, d'Ozetês, o cartunista das charges políticas, publicado pela Folha de S.Paulo desde 1977-"são 26 anos, vixe!" - tornou-se um líder espiritual. Juntou um povo e ergueu uma igreja do Santo Daime no Morro de Santa Fé, próximo do Pico do Jaraguá, na Grande São Paulo, pela qual já passaram milhares de pessoas. "Muita gente se conheceu dentro do salão e se casou - já são mais de 20 crianças exclusivas da igreja Céu de Maria", diz, satisfeito. E resume, certeiro: "É uma faculdade da Nova Era."
As mãos de Deus estão tecendo a rede. Mexendo o doce. Desde quando a história começou, em 1993 - numa casinha no bairro do Butantã, depois numa maior, na entrada da Cidade Universitária, até chegar a esse morro -, o ponto foi se firmando, virou igreja e, em 2000, acabou escolhida igreja oficial de São Paulo. Uma irmandade está indo morar à sua volta. "É um condomínio de daimistas", explica Glauco. "Batizado de Vila Astral pelo Padrinho Alfredo." Padrinho Alfredo, filho do Padrinho Sebastião, comanda a doutrina desde a morte do pai, em 1990. "É isso aí, não tem mistério", diz ele.
Mistério tem. Porque a história começou muito antes, quando ele aprendeu a sonhar. Glauco relata coincidências. Agradece a sorte (mas sorte é poder pessoal, diz Carlos Castañeda). Sorte de ter encontrado, ainda em Jandaia do Sul, Paraná, onde nasceu, um amigo que lhe apresentou o Pasquim e os Beatles, e com quem criou seus primeiros quadrinhos. De ter topado com dois mestres do jornalismo logo que chegou a Ribeirão Preto, interior de São Paulo. De ter sido premiado no Salão Internacional de Humor de Piracicaba em 1977, justo quando todo seu panteão - Henfil, Angeli, Jaguar, Millôr, Ziraldo, os Caruso - fazia parte do júri. De ter sido hospedado pelo Henfil e adotado pelo Angeli ao chegar a São Paulo.
Em 1975, 18 anos, Glauco foi morar em Ribeirão e logo deu as caras no jornal editado por José Hamilton Ribeiro. "A cidade tinha uma safra de feras - o Sérgio de Souza, depois do Bondlinho, também foi para lá montar um jornal alternativo." (Para quem não sabe, José Hamilton Ribeiro fez a cobertura, pela Realidade, da Guerra do Vietnã. Sérgio de Souza, o Serjão, foi seu companheiro de Realidade e é o criador da revista Caros Amigos.)
Zé Hamilton Ribeiro lhe ofereceu emprego. "Foi meu primeiro padrinho", diz Glauco, que já tinha dois personagens, Rei Magro e Dragolino. "Eles passavam o dia todo queimando um", lembra. Zé Hamilton também se recorda. "Percebi que estava diante de alguém especial - o artista capta sinais que a gente, comum, não percebe. Sua presença física já era de oposição." Sobre o Glauco e o amigo Sérgio de Souza, diz: "Bom mesmo são as pessoas que conseguem fundar sua própria igreja - não sobre pilares de ouro, pois essas podem ser roubadas, mas sobre os pilares do espírito".
Outros padrinhos se seguiram. O cartunista Angeli, que editava o Vira Lata no folhetim dos tempos do Tarso de Castro, começou a publicar seu trabalho. O Henfil, sua maior influência desde que conheceu o Pasquim, o hospedou durante nove meses. "Estou falando com Deus, pensava, quando conheci o Henfil. Os Fradinhos, aquele traço todo solto, o uso do palavrão - o trabalho dele era um avanço muito grande."
Na sombra do cartunista, contudo, nascia o sonhador. Glauco aprendeu a sonhar consciente com o livro A Erva do Diabo, de Carlos Castañeda. "Através das instruções dele passei a sair do corpo e a comprovar que estive em certos lugares - perdi muito tempo com isso. Eu ia lá na frente da redação do jornal, sonhando, ia lá e decorava o número do poste, numa plaquinha. Acordava e ia correndo ver - estava lá! Passei uma época obcecado em convencer minha razão."
Foi quando sonhou com o Padrinho Eduardo, que ainda não conhecia. No sonho um índio dizia, dirigindo-se a uma multidão diante dos dois - olha, é ele quem vai levar vocês. Acordou achando que tinha sonhado com Dom Juan Matus, o feiticeiro yaqui de quem Castañeda foi aprendiz. "Parecia um inca - um narigão, baixinho, atarracadinho... nunca esqueci aquele véinho." Foi a sinalização do caminho para o Santo Daime.
Com The Teachings of Don Juan (título original e mais sensato de A Erva do Diabo), o antropólogo Carlos Castañeda abria, em 1968, uma corrente de atenção para as plantas de poder dos índios americanos. "Ele devolveu um valor que estava sendo deixado de lado, que é prestar atenção nas plantas professoras dos nossos caboclos." Muita gente considerava aquilo alienante. Mas Glauco, cartunista de esquerda, convivia também com o Budismo, com Osho... "A antropofagia me ensinava a possibilidade de freqüentar todas essas linhas."
A oportunidade de conhecer o Daime sempre lhe escapava. Até que um dia... "baixou o Zé do Apocalipse numa roda de bar e comecei a alugar o povo com disco voador, Eubiose, Dorn Bosco, Smetack, Madame Blavatsky, Rudolf Steiner, o Brasil sendo a pátria da Nova Era pela mistura das raças. A moçada pensando: esse cara é doido! Fiquei meio puto e intimei meus guias - vocês têm dez minutos para mandar um veio de luz para me ajudar, falei com meus botões. E fiquei olhando o relógio." No final do tempo chegou Leo Christo, psicólogo mineiro, irmão do Frei Betto." Estava te esperando desde a índia, veio", o Glauco disse para ele - que só relaxou quando soube que se tratava do criador do Geraldão.
Era 1989 e o Leo lhe apresentou o Daime. Glauco começou a freqüentar a comunidade de Visconde de Mauá, na fronteira do Rio com Minas Gerais, liderada pelo escritor, poeta e ex-guerrilheiro Alex Polari de Alverga. Com ele foi ao Céu do Mapiá, a comunidade-mãe do Santo Daime, na Amazônia. E foi lá, no primeiro trabalho de que participou, que viu Padrinho Eduardo, o véinho do sonho. "Entendi que aquilo de ele dizer, no sonho, para a multidão – “é ele quem vai levar vocês...” — significava que eu ia levar um povo para o Mapiá. E criei coragem para abrir um ponto do Daime."
Glauco inaugurou um grupo de estudos, o que causou certo incômodo nos daimistas de São Paulo." Mas devagarinho o pessoal entendeu que vinha chegando uma moçada com o meu jeitão - estudantes, o pessoal da night, os viciados, toda a fauna paulista. O sonho era a procuração para me dar coragem." O ponto em frente à USP exigiu mesmo muita coragem. Quando foi alugada, a casa estava ocupada por meninos de rua. Na frente dela trabalhavam prostitutas e travestis. A cada trabalho os vizinhos chamavam a polícia. Um clima meio dark, digamos.
"Mas tinha uma luz que transcende essa trevinha", diz Glauco. "Era o amor do Cristo, mesmo, que eu sentia. Quando abri o portão daquela casa tinha dez meninos de rua ali no fundo, numa fuinha, atocaiada. Um pacotinho, de presente, pronto para começar o trabalho. Lembrei-me do banquete do Cristo, quando Ele convidou todo mundo, mas estavam todos ocupados com seus negócios. E aí Ele chamou o povão, os simples, os desvalidos. Quando o Céu de Maria abriu ali, senti que tinha a força da caridade contra a miséria humana. Dois daqueles meninos estão comigo até hoje."
Glauco colheu ali o seu povo. "Chegaram os artistas, a turma da Vila Madalena." E as mulheres. Primeiro a Kiki, madrinha da Flor das Águas, igreja pioeira de São Paulo. Em seguida, as irmãs Paula e Bia, que se tornaram o esteio da casa. Depois as irmãs Silvia e Lu, filhas do Serjão de Souza.
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